Resenhado por Joel R. Gômez (Ourense, 1959)
Jornalista comprometido com Galiza e com o galego, galardoado com várias homenagens (como o do Colégio Oficial de Psicologia da Galiza ‘Dolores Llópiz’) e grande estudioso da obra e da pessoa de Ernesto Guerra da Cal, da qual recentemente defendeu na sua tese de doutoramento, cujo título é A trajectória de Ernesto Guerra da Cal nos campos científico e literário.
Poucas ideias e actividades som inocentes. E dificilmente a literatura se pode contar entre elas. As motivações para produzir um texto literário, ou as interpretações que dele se fazem, mudam como os tempos e as vontades, a que devem sucesso ou esquecimento.
Assim se explica que produtos que gozárom de favor e fervor receptivo ao se publicarem, ao cabo dos anos merecessem apenas umha simples nota de rodapé, ou nem isso, nas histórias literarias; enquanto outros, obscurecidos no seu tempo, fórom "redescobertos" e reivindicados anos depois, para além de investigados por especialistas e estudados no ensino.
Isto resultou e resulta assim por ser a Literatura elemento identificador das sociedades, polo menos das conhecidas, que ultrapassa portanto o individual para simbolizar o(s) valor(es) que quer salientar a colectividade; e construi-se e evolui através de processos e de transformações.
O percurso para atingir o reconhecimento costuma ser longo, e nele vam-se quebrando sucessivas resistências, até a aceitaçom. Rosália de Castro ou Eça de Queirós, por colocar dous exemplos de produtores do XIX hoje incluídos no cánone, situárom-se nessa privilegiada posiçom nom em vida nem nos anos imediatamente posteriores à morte: entre os coevos desfrutárom de sucesso, mas também suportárom detractores; e essa convivência entre os que os defendiam e os que lhes negavam valor prolongou-se durante décadas, até que o sucessivo labor de outras/os escritoras/es, críticas/os, artistas da pintura e a escultura, economistas, empresas editoras, revistas e, é claro, representantes da Política e de instituições, entre outros muitos agentes, propiciárom nos anos finais do século XX condições para que hoje sejam figuras de universalidade, válidas para diferentes ideologias, que aclamam e/ou utilizam os seus produtos para se exprimirem.
É claro que um grupo da direita nom se valerá porventura da mesma escolha de Rosália ou de Eça que outro da esquerda, ponhamos por caso, mas hoje podem encontrar respostas e/ou soluções ao ler ou estudar as suas produções; enquanto representantes da esquerda e/ou da direita antecedentes as rejeitavam por motivações em que hoje talvez pouco se repare.
Esta progressiva construçom nom se costuma considerar. O habitual é partir do resultado de processos, sem valorizar as luitas e trabalhos que se travárom para que frutificassem. Os poderes dominantes primam as propostas que entendem mais favoráveis para os seus interesses e reproduçom. E os progressos de outras, julgadas incómodas ou inconvenientes, som por vezes difíceis de detectar. Porém, as mudanças emergem, porque as sociedades, ao se moverem, precisam novidades para espelhar novas realidades, fruto de cumplicidades e esforços, entre os quais os do campo literário.
Na Galiza, este campo manifesta-se muito conflituoso. Nele detectam-se cavalos-de-tróia da invasom cultural que, gozando de favores e apoios, se apresentam mesmo como vítimas e reivindicam direitos que habitualmente usufruem, e que a outras/os se lhes negam sempre, ou quase sempre; mas também produtoras e produtores que agem como simples caça-recompensas; passadistas que defendem postulados ultrapassados há séculos já por activistas como Sarmiento ou Murguia; funcionalistas que se adaptam, e contribuem à ilusom de umha normalidade; quem se crêem possuidores de estilos geniais, ou guardadores de essências... Nestes colectivos costuma-se julgar a Literatura igual em toda a parte; sem acreditarem que a fortuna histórica da mesma está relacionada com outros factores sociais, todos eles em construçom.
Muito se tem dito que entre as funções da Literatura está a de robustecer um projecto colectivo que melhore a vida do conjunto da cidadania. De acreditar-se nisso, para conseguir tam ambicioso fim hoje parece claro que, entre nós, deve puxar para consolidar um modelo de língua autóctone útil, benquisto, que se viva como necessário e identificador da comunidade; o que nom é o mesmo que se adaptar com docilidade e acriticamente a receitas que já tenhem demonstrado o seu fracasso. Ou mesmo, como em ocasiões tem acontecido, aceitar alegremente a derrota, renunciando a tentar novos caminhos para procurar esse anelado bem social; e involuindo mesmo, até se chegar a posicionar voluntária e propositadamente entre quem combate aquelas/es que nom desistem.
No meio da complexidade e de luitas muito vivas encontramos José Alberte Corral Iglesias e Buracos no Espelho, o volume de narrativa que agora apresenta. Concorre em peculiares circunstáncias desfavoráveis: colocando-se a par de aqueles que defendem o ecumenismo para a língua própria da Galiza, e portanto propugnam a sua maior validade e universalidade na linha da sua melhor história e tradiçom, situa-se pa radoxalmente na periferia, para a qual visam expulsar essa alternativa os opositores, apoiados por poderes cegados e/ou comprometidamente interessados no seu fracasso. José Alberte Corral Iglesias sabe que nom usa um idioma quadriprovincial, e trabalha para trajá-lo como lhe corresponde, sem livre de escravatura, na esteira do ilustre Carvalho das Letras Galegas, em cuja boa escola se filia.
Essa definiçom lingüística é coerente com a posiçom que arvora nos seus textos, continuidade de um labor poético, narrativo ideológico, em que sempre transparece o homem, com as suas contradições e contrastes, como ser em continuado processo de construçom e conhecimento.
Nos 23 relatos que agora nos oferece encontramos páginas em que eclode o melhor da natureza humana, como o amor ou diálogo; ao lado de outras que assinalam também aonde pode chegar o fruto da própria actuaçom social, com risco de degenerar em imundícias e terrores difíceis de entender e muito menos justificar. Estes buracos nos espelho, na vida, revelam realidades experimentadas ou conhecidas.
Surge assim umha Literatura intencionada, propositada, longe de cumprir umha funçom narcotizante, como muita da que nos é apresentada como modelo e triunfadora no nosso País, tam necessitado de renovaçom também neste ámbito. Estamos, porém, perante umha Literatura que já ofereceu outros frutos maduros. Nela reivindica umha Galiza com novo futuro, melhor diferente, mais justo e humano.
Um futuro sem opressóes nem dependéncias desnecessárias, de cidadaos protagonistas da História num "país que ainda nom existe", como assinalava outro celebrado vate. Porque a sua Galiza nom é ilha isolada, e as suas gentes inserem-se no mundo em direito de igualdade: por isso todo lhe diz respeito, mesmo realidades que por vezes se apresentam interessadamente como distantes e alheias, mas que partilham um anseio de solidariedade e paz com as pessoas que hoje respiram no Noroeste ibérico, ou que tendo nele nascido se vem na obriga de morar territórios alheios, muitas vezes expulsas ou (auto)exiladas por causas de que nem sempre se chega a ser consciente.
Para todas e todos, do interior e do exterior, oferece Corral Iglesias umha Literatura positiva e amiga, alicercada nas suas experiências, num aprendizado continuado em batalhas vividas entre nós mas também fora, que conformam singular biografia e um constante posicionar-se sem esquecer quem perde ou se torna desfavorecido, aquelas e aqueles que procuram umha melhor existência para o seu dia-a-dia. Umha escrita igualmente de diálogo com figuras de diversas literaturas; muitas delas próximas mas, e ele bem o sabe, que nunca a ele o citarám, e quiçá nem porventura o queiram ler de boa vontade.
Por isso me interessa o trabalho literário de José Alberte Corral Iglesias, e muito me lisonjeia e honra o poder redigir este texto que, privilegiadamente, acompanha outra produçom do seu bom ofício de escrita. Deveras almejo que outros numerosos leitores e leitoras encontrem o mesmo prazer e aprendizagem ao mergulharem neste novo presente de um experimentado operário, que utiliza a Literatura para cultivar o futuro; para alcançar umha renovada Galiza, acordada segundo as "altas e sagradas vozes" dos seus melhores "Evangelistas e Profetas", como advogava outro Poeta nosso.
Umha Galiza, enfim, em que mais nunca haja excluídos, e que poda servir de firme alicerce para senhorear nas suas águas e terras, nas suas escolas e outros centros de actividade social, vidas felizes, plenas e em liberdade.
Poucas ideias e actividades som inocentes. E dificilmente a literatura se pode contar entre elas. As motivações para produzir um texto literário, ou as interpretações que dele se fazem, mudam como os tempos e as vontades, a que devem sucesso ou esquecimento.
Assim se explica que produtos que gozárom de favor e fervor receptivo ao se publicarem, ao cabo dos anos merecessem apenas umha simples nota de rodapé, ou nem isso, nas histórias literarias; enquanto outros, obscurecidos no seu tempo, fórom "redescobertos" e reivindicados anos depois, para além de investigados por especialistas e estudados no ensino.
Isto resultou e resulta assim por ser a Literatura elemento identificador das sociedades, polo menos das conhecidas, que ultrapassa portanto o individual para simbolizar o(s) valor(es) que quer salientar a colectividade; e construi-se e evolui através de processos e de transformações.
O percurso para atingir o reconhecimento costuma ser longo, e nele vam-se quebrando sucessivas resistências, até a aceitaçom. Rosália de Castro ou Eça de Queirós, por colocar dous exemplos de produtores do XIX hoje incluídos no cánone, situárom-se nessa privilegiada posiçom nom em vida nem nos anos imediatamente posteriores à morte: entre os coevos desfrutárom de sucesso, mas também suportárom detractores; e essa convivência entre os que os defendiam e os que lhes negavam valor prolongou-se durante décadas, até que o sucessivo labor de outras/os escritoras/es, críticas/os, artistas da pintura e a escultura, economistas, empresas editoras, revistas e, é claro, representantes da Política e de instituições, entre outros muitos agentes, propiciárom nos anos finais do século XX condições para que hoje sejam figuras de universalidade, válidas para diferentes ideologias, que aclamam e/ou utilizam os seus produtos para se exprimirem.
É claro que um grupo da direita nom se valerá porventura da mesma escolha de Rosália ou de Eça que outro da esquerda, ponhamos por caso, mas hoje podem encontrar respostas e/ou soluções ao ler ou estudar as suas produções; enquanto representantes da esquerda e/ou da direita antecedentes as rejeitavam por motivações em que hoje talvez pouco se repare.
Esta progressiva construçom nom se costuma considerar. O habitual é partir do resultado de processos, sem valorizar as luitas e trabalhos que se travárom para que frutificassem. Os poderes dominantes primam as propostas que entendem mais favoráveis para os seus interesses e reproduçom. E os progressos de outras, julgadas incómodas ou inconvenientes, som por vezes difíceis de detectar. Porém, as mudanças emergem, porque as sociedades, ao se moverem, precisam novidades para espelhar novas realidades, fruto de cumplicidades e esforços, entre os quais os do campo literário.
Na Galiza, este campo manifesta-se muito conflituoso. Nele detectam-se cavalos-de-tróia da invasom cultural que, gozando de favores e apoios, se apresentam mesmo como vítimas e reivindicam direitos que habitualmente usufruem, e que a outras/os se lhes negam sempre, ou quase sempre; mas também produtoras e produtores que agem como simples caça-recompensas; passadistas que defendem postulados ultrapassados há séculos já por activistas como Sarmiento ou Murguia; funcionalistas que se adaptam, e contribuem à ilusom de umha normalidade; quem se crêem possuidores de estilos geniais, ou guardadores de essências... Nestes colectivos costuma-se julgar a Literatura igual em toda a parte; sem acreditarem que a fortuna histórica da mesma está relacionada com outros factores sociais, todos eles em construçom.
Muito se tem dito que entre as funções da Literatura está a de robustecer um projecto colectivo que melhore a vida do conjunto da cidadania. De acreditar-se nisso, para conseguir tam ambicioso fim hoje parece claro que, entre nós, deve puxar para consolidar um modelo de língua autóctone útil, benquisto, que se viva como necessário e identificador da comunidade; o que nom é o mesmo que se adaptar com docilidade e acriticamente a receitas que já tenhem demonstrado o seu fracasso. Ou mesmo, como em ocasiões tem acontecido, aceitar alegremente a derrota, renunciando a tentar novos caminhos para procurar esse anelado bem social; e involuindo mesmo, até se chegar a posicionar voluntária e propositadamente entre quem combate aquelas/es que nom desistem.
No meio da complexidade e de luitas muito vivas encontramos José Alberte Corral Iglesias e Buracos no Espelho, o volume de narrativa que agora apresenta. Concorre em peculiares circunstáncias desfavoráveis: colocando-se a par de aqueles que defendem o ecumenismo para a língua própria da Galiza, e portanto propugnam a sua maior validade e universalidade na linha da sua melhor história e tradiçom, situa-se pa radoxalmente na periferia, para a qual visam expulsar essa alternativa os opositores, apoiados por poderes cegados e/ou comprometidamente interessados no seu fracasso. José Alberte Corral Iglesias sabe que nom usa um idioma quadriprovincial, e trabalha para trajá-lo como lhe corresponde, sem livre de escravatura, na esteira do ilustre Carvalho das Letras Galegas, em cuja boa escola se filia.
Essa definiçom lingüística é coerente com a posiçom que arvora nos seus textos, continuidade de um labor poético, narrativo ideológico, em que sempre transparece o homem, com as suas contradições e contrastes, como ser em continuado processo de construçom e conhecimento.
Nos 23 relatos que agora nos oferece encontramos páginas em que eclode o melhor da natureza humana, como o amor ou diálogo; ao lado de outras que assinalam também aonde pode chegar o fruto da própria actuaçom social, com risco de degenerar em imundícias e terrores difíceis de entender e muito menos justificar. Estes buracos nos espelho, na vida, revelam realidades experimentadas ou conhecidas.
Surge assim umha Literatura intencionada, propositada, longe de cumprir umha funçom narcotizante, como muita da que nos é apresentada como modelo e triunfadora no nosso País, tam necessitado de renovaçom também neste ámbito. Estamos, porém, perante umha Literatura que já ofereceu outros frutos maduros. Nela reivindica umha Galiza com novo futuro, melhor diferente, mais justo e humano.
Um futuro sem opressóes nem dependéncias desnecessárias, de cidadaos protagonistas da História num "país que ainda nom existe", como assinalava outro celebrado vate. Porque a sua Galiza nom é ilha isolada, e as suas gentes inserem-se no mundo em direito de igualdade: por isso todo lhe diz respeito, mesmo realidades que por vezes se apresentam interessadamente como distantes e alheias, mas que partilham um anseio de solidariedade e paz com as pessoas que hoje respiram no Noroeste ibérico, ou que tendo nele nascido se vem na obriga de morar territórios alheios, muitas vezes expulsas ou (auto)exiladas por causas de que nem sempre se chega a ser consciente.
Para todas e todos, do interior e do exterior, oferece Corral Iglesias umha Literatura positiva e amiga, alicercada nas suas experiências, num aprendizado continuado em batalhas vividas entre nós mas também fora, que conformam singular biografia e um constante posicionar-se sem esquecer quem perde ou se torna desfavorecido, aquelas e aqueles que procuram umha melhor existência para o seu dia-a-dia. Umha escrita igualmente de diálogo com figuras de diversas literaturas; muitas delas próximas mas, e ele bem o sabe, que nunca a ele o citarám, e quiçá nem porventura o queiram ler de boa vontade.
Por isso me interessa o trabalho literário de José Alberte Corral Iglesias, e muito me lisonjeia e honra o poder redigir este texto que, privilegiadamente, acompanha outra produçom do seu bom ofício de escrita. Deveras almejo que outros numerosos leitores e leitoras encontrem o mesmo prazer e aprendizagem ao mergulharem neste novo presente de um experimentado operário, que utiliza a Literatura para cultivar o futuro; para alcançar umha renovada Galiza, acordada segundo as "altas e sagradas vozes" dos seus melhores "Evangelistas e Profetas", como advogava outro Poeta nosso.
Umha Galiza, enfim, em que mais nunca haja excluídos, e que poda servir de firme alicerce para senhorear nas suas águas e terras, nas suas escolas e outros centros de actividade social, vidas felizes, plenas e em liberdade.