Resenhado por Joseph Ghanime Lopes
Professor de Português na EOI de Lugo
Cruzamos a porta de qualquer sala de aulas ou biblioteca pública da Galiza e logo transparece uma evidência: os materiais bilingues para a aprendizagem de línguas estrangeiras não fôrom uma prioridade das políticas de normalização do idioma. O dinheiro gasto polas equipas de normalização linguística nas universidades, liceus e até EOIs foi antes dedicado a magustos, entrudos e atividades para o Dia das Letras do que a garantir que os alunos galegos e galegas poidam aprender inglês, francês ou alemão partindo do galego, ou polo menos, sem ter que recorrer de maneira sistemática ao castelhano, como testemunham montes de dicionários língua estrangeira-espanhol empilhados nas estantes.
Os Dicionários Académicos da Porto Editora são uma bagagem de mão mui jeitosa para os galegos migrarmos à procura das línguas dos outros sem fazermos escala obrigatoriamente em Madrid. Antes de nos debruçarmos sobre o dicionário inglês-português/português-inglês, queremos lembrar que nesta linha editorial também há dicionários bilingues de alemão, francês, espanhol, grego, polaco, italiano, latim e sérvio e croata. Duas virtudes de todos os volumes saltam aos olhos: tamanho prestável e preço razoável – em todos os casos inferior a vinte euros. Acresce a isto que as últimas edições - entre elas a do dicionário inglês-português- estão a sair do prelo com formas adatadas ao acordo ortográfico, o que nos permite atualizar os nossos conhecimentos ortográficos ao passo que aprendemos língua estrangeira.
Já no que diz especificamente respeito a este inglês-português/português-inglês, vejamos como ele se adequa às nossas necessidades em termos de quantidade, qualidade e vantagem de uso para os galegos. No primeiro dos sentidos referidos, o dicionário tem -segundo a contracapa- mais de 80000 traduções em inglês e 72000 em português, bem como mais de 17000 exemplos e frases idiomáticas em português e cerca de 15000 em português. Embora estas contagens nem sempre sejam muito fiáveis, se tivermos em conta que a edição mais abrangente do dicionário inglês-português da mesma editora tem 220.000 traduções e 85000 frases idiomáticas, podemos concluir que o dicionário de bolso inlcui aproximadamente um terço da informação que encontramos nos seus homólogos maiores, o que não é pouco. De facto, poderá ser mais que suficiente para resolver a imensa maioria das consultas linguísticas que fiquem aquém do limiar da língua especializada ou do vocabulário próprio de gírias, socioletos ou usos dialetais. Dá jeito, por conseguinte, irmos para a praia com este dicionário e o último livro de Noam Chomsky em inglês: com certeza vamos conseguir perceber o essencial do texto e muitos dos pormenores.
A importância dada às expressões idiomáticas -como se colige das informações acima referidas- é o primeiro elemento de qualidade desta obra que queremos referir. Ao contrário de muitos dicionários bilingues que acumulam sinónimos aparentes a torto e direito, com equivalências amiúdo literais e pouco exatas, neste logo nos deparamos com exemplos de locuções verbais, ditados, e outras unidades lexicais para além do limite da palavra. Deparamo-nos até -o que nem sempre acontece em publicações destas dimensões- com aquilo que costuma ser chamado de “colocações”, isto é, combinações de unidades lexicais bastante transparentes em termos de compreensão mas difíceis de produzir para um falante não nativo, do género de heavy smoker (fumador compulsivo), break a promise (quebrar uma promesa) ou reach an agreement (chegar a acordo).
Para além das informações referidas estritamente à equivalência semântica, iremos encontrar, entre outros campos, neste dicionário: transcrição fonética a R.P. (Received Pronunciation: padrão fonético do inglês britânico) das entradas em inglês – mas lamentavelmente ausente das entradas em português; especificações de contexto de uso; especificações de elementos a que uma unidade lexical pode dizer respeito: “Ease up - (dor, tensão, chuva) abrandar”; especificações em negra de regências tanto na língua fonte quanto na língua alvo: “(eager to / for /por): they are eager to leave / estão ansiosos por partir”; especificações de morfologia nominal e adjetival: “Earthly (comp.-ier, superl.-iest)”; passados de verbos com pretéritos “fortes” (drive-drove-driven) e verbos com partículas adverbiais (Phrasal Verbs) em negra; informações de registo, com abreviaturas como pop (popular), deprec (depreciativo), cal (calão), coloq (coloquial); especificações da área do saber a que uma unidade lexical diz respeito: BOT, ZOOL, AN. Se bem que o dicionário tenha sido feito com base no português europeu e o inglês britânico, as abreviaturas Can, Esc (Escócia), EUA, Austr e Bras remetem ocasionalmente para essoutras variantes geográficas.
Os galegos não acostumados a utilizar este tipo de ferramentas constatarão logo que começarem a usá-las que as equivalências em português são quase sempre o bastante esclarecedoras e transparentes para que a dependência do dicionário espanhol-inglês poida ser ultrapassada. A nossa sugestão é avançar com o dicionário monolingue de inglês -sempre recomendável como primeiro recurso- tão longe como pudermos, recorrendo ao bilingue inglês-português quando: ainda não nos damos bem com o monolingue por termos ainda um nível mui básico em inglês; queremos fazer uma consulta rápida e simples; precisamos de resolver problemas específicos que requerem o bilingue, do género de swallow-andorinha ou lark-cotovia.
Pegai, por exemplo, no discurso I have a dream de Marthin Luther King e vereis que o dicionário inglês-português o resolve quase tudo. O pior que pode acontecer, quando não percebemos a equivalência portuguesa de uma palavra, é que após uma segunda consulta noutro dicionário -o monolingue em inglês, o monolingue em português ou até aquele inglês-espanhol que decerto já teremos deixado arrumado na gaveta- venhamos a aprender, não apenas o significado da palavra em inglês, como também uma palavra da nossa língua que não conhecíamos. Para mais, a própria palavra em inglês vai ficar melhor aprendida, porquanto tivemos que a consultar duas vezes em dous dicionários em vez de só uma num único dicionário – e rezam nesse sentido as teorias cognitivas da aquisição de línguas estrangeiras que quando maior for o esforço em processar uma nova unidade lexical, maiores também serão as hipóteses de a retermos na memória a longo prazo.
E já para finalizar, queiramos nós, viciados e viciadas nesta língua e naqueloutras que só com teimosia e uma faísca de amor polo alheio conseguimos povoar; queiramos nós-outros daquela dizer o nosso I have a dream lexicográfico: um dicionário inglês-português adatado para galegos, com inclusão de variantes lexicais e fraseologia galegas, bem como transcrição fonética para uma ortofonia galega ainda por concretizar.
We cannot walk alone.