Resenhado por Joseph Ghanime Lopes
Joseph Ghanime nasceu em Santiago de Compostela em 1973. Medrou na Crunha e atualmente dá aulas de português na EOI de Lugo.
O Dicionário de dúvidas, dificuldades e subtilezas da língua portuguesa é uma obra de consulta também apta para ser lida de início a fim, aproveitando pequenas deslocações em transporte público ou os primeiros ederradeiros momentos do dia. De entrada em entrada, a curiosidade por desvendar estas miudezas linguísticas leva-nos sem grande esforço até a derradeira página.
De um dicionário de dúvidas e dificuldades esperamos três cousas: informações não facilmente acessíveis noutras fontes mais convencionais; acesso fácil e intuitivo a tais informações; e ainda, clareza, exatidão e coerência nos textos explicativos.
Nesta obra encontramos um vasto conjunto de esclarecimentos, não sempre fáceis de localizar em dicionários, prontuários ou gramáticas convencionais. É o caso das diferenças de significado entre palavras próximas (por exemplo, citação/intimação/notificação); inúmeros casos de regências (concordar com, discordar de, etc.); itens gramaticais como o uso de com nós e com vós (em vez de connosco e convosco) nalguns casos (Amanhã vamos ter com vós dois); problemas de concordância, como o de algumas construções com a partícula apassivante se (*compra-se terrenos, *dá-se explicações, francesismos sintáticos); a diferença de pronúncia em pares como corretor (“agente”, com e mudo) e corretor (de “corrigir”, com e aberto) – embora não se esclareça a pronúncia de outros casos interessantes, como cota-quota; a pronúncia do e mudo em palavras como feminino, esquisito; pares como de mais (contrário de de menos) vs. demais (excessivamente, muitíssimo); palavras parónimas como desapercebido (desprevenido) / despercebido (sem perceber), e muitos outros pormenores e curiosidades da língua.
A informação sobre mudanças de género e número, gentílicos ou conjugação de verbos com irregularidades é também abundante. Muita desta informação é fácil de localizar em gramáticas e prontuários. Nunca, porém, está demais rever aquilo que, por excecional ou periférico no sistema linguístico, facilmente nos pode levar a erro.
Quanto à acessibilidade da informação, o manual vai bastante ao encontro das necessidades do leitor. Pareceu-nos uma boa estratégia a combinação de verbetes que ligam diretamente às unidades lexicais em causa (condolência, expor, submergir) com outros que dim respeito à questão envolvida (concordância entre o sujeito e o predicado, hífen, etc.), assim fornecendo uma dupla via de aproximação aos conteúdos.
Ora, se alguma cousa se pode melhorar na estrutura do dicionário, ela é a repetição desnecessária de informações análogas em diversas entradas. É que acontece com os casos de alteração (porco [ô] -porca [ó] – pórcos [ó]) ou manutenção (acordo [ô] – acordos [ô]) do timbre da vogal. Depois de um longo esclarecimento sobre o assunto no verbete acordo, onde se fornecem inúmeros exemplos, iremos encontrar a mesma explicação repetida nas entradas correspondentes a muitos desses exemplos (bojo, poço, etc. ). O mesmo acontece com outros itens como os plurais das palavras em ão (camião, corrimão, etc.). Algumas páginas de dicionário teriam sido poupadas fazendo simplesmente as remissões às entradas principais.
A redação dos textos explicativos é de boa qualidade e clara, e a informação precisa. Quanto aos critérios para discernir o correto do errado, detecta-se alguma incoerência ao admitir formas já consagradas no uso (fazer com que), enquanto se condenam outras (*tinha pago por tinha pagado, *eu gostava que por eu gostava de que). Parece-nos que não será simples travar as mudanças linguísticas que se estão a operar nestas áreas críticas da língua, muito apesar dos conselhos prescritivos de dicionários deste tipo. Uma simples pesquisa no GOOGLE, restringida aos sítios portugueses, mostra que eu tinha pago tem um número muito maior de ocorrências que eu tinha pagado – o mesmo acontecendo com eu gostava que (..), bem mais frequente que a construção recomendadaeu gostava de que.
Quanto à variante ortográfica escolhida, os verbetes foram redigidos na norma do português europeu anterior ao Acordo de 1990. Inclui-se, sim, um breve esclarecimento da nova ortografia quase sempre que os itens são atingidos por ela – embora com alguma distração neste sentido, como quando se recomenda a forma Tróia (ver a entrada comboio), sem referir que o AO prevê deixar de acentuar as palavras graves com ditongo “oi” aberto. Comparar a informação do “antes” e o “depois” do AO tem vantagens do ponto de vista pedagógico. No entanto, tendo em consideração o grau de aceitação que a nova ortografia vai ganhando, julgamos que teria sido mais razoável privilegiar a ortografia do AO por defeito – nomeadamente em casos como o uso do hífen, onde a simplificação operada foi evidente.
E ainda quanto ao Acordo, o livro inclui uma nota explicativa final com a história e principais conteúdos das diversas tentativas de unificação ortográfica. É um texto breve, simples e mui esclarecedor para o leitor pouco familiarizado com o assunto.
Muito, enfim, é o que se pode aprender com este Dicionário de dúvidas, dificuldade e subtilezas da língua portuguesa, que aconselhamos ter em cima da secretária ou levar na mala para dele ir petiscando dicas e curiosidades.
Joseph Ghanime