Resenha de Eduardo Maragoto (Ortegal, 1976),
Professor da EOI de Valência entre 2001 e 2006, na actualidade trabalha na EOI de Compostela. Desde 2006 a 2010 pertenceu ao Conselho de Redaçom do jornal Novas da Galiza. Também pertence a comissom de defesa da língua da Gentalha do Pichel. É co-autor do Manual Galego de Língua e Estilo e do documentário Entre Línguas.
Para quem aprende ou ensina português, este nom é apenas um novo livro de língua no mercado, porque vem com um DVD que reúne umha seleçom de 13 entregas (de mais ou menos 10 minutos cada umha) do Cuidado com a Língua. Este programa, que continua a dar a RTP 1 com elevados índices de audiência, é interessante quanto aos conteúdos e o formato. Seria análogo ao nosso Bem Falado, mas com aspeto mais juvenil e informaçons mais diversificadas. A encenaçom de cada explicaçom costuma estar mui bem trabalhada, e os seus realizadores nom olham a meios para irem procurar cenários exteriores para ilustrar cada palavra.
Como noutro tipo de materiais de aprendizagem da língua portuguesa, o principal defeito deste espaço televisivo é o corretismo excessivo de algumhas partes do mesmo em que se condenam usos populares do português contemporáneo, como quando se explica que deve evitar-se a perífrase de obrigatoriedade ter que sair, usada em vez de ter de sair, ou quando som desaconselhadas formas como assassinato (por assassínio), melhor feito (por mais bem feito), ter a ver (por ter que ver), ou algumhas expressões da linguagem do futebol que os guionistas do programa consideram inadequadas, sem explicarem o porquê. Porém, isto nom deixa de ser interessante para quem se está a aproximar da variedade de além-Minho, que encontrará neste livro um excelente modo descobrir como é entendida a variedade padrom de umha língua num Estado monolíngüe como o português.
Noutras ocasions, o programa também enferma de simplificador, sobretodo quando pretende explicar alguns lances da história da língua, e num dos capítulos chega a situar os primórdios do romanço que dá origem ao português arcaico no latim lusitánico, explicaçom que na Galiza sabemos evidentemente errada. Porém, cumpre valorizar positivamente ao Cuidado com a Língua o facto de que nom se tenha esquecido do galego e da Galiza para outras explicaçons. Aliás, o programa chegou a dedicar sobre à questom do galego um capítulo inteiro, infelizmente nom incluído neste DVD.
Os senons referidos nos parágrafos anteriores nom restam valor a um programa que é, sobretodo, um estimulante exercício de compreensom auditiva, nomeadamente nas partes em que portugueses e portuguesas som perguntadas quanto à forma de se pronunciarem algumhas palavras, ou aquelas em que som detectados erros no português falado de algumhas personagens públicas (língua de trapos).
Contra o final do programa, os exemplos do que o Cuidado com a Língua chama português maltratado costumam ser verdadeiras joias (tiradas de anúncios e publicidades afixadas por pessoas) de como a ortografia nom costuma ser um fiel reflexo da língua falada, sendo muitas as ocasions em que os galegos e galegas poderíamos rever-nos: prócimo (por próximo), cantar-mos (por cantarmos).
Muitos dos sketch falam de palavras, da história das palavras, de histórias e significados diferentes no português africano e no brasileiro, no português do Norte e no do Sul, no das ilhas e no do continente, e é sempre estimulante entender a nossa língua como quase inatingivelmente diversa.
O livro, que contém o índice de todos os conteúdos audiovisuais, compila também, nalguns casos quase que transcrevendo, os trechos mais interessantes dos programas do DVD, mas também contém algumhas informaçons acrescentadas de outros capítulos.
Para além disso, tanto na ediçom impressa como na audiovisual, Cuidado com a Língua! está cheio de curiosidades relacionadas com léxico, expressons e ditados populares, que vos proponho descobrir com a compra do próprio CD. Eis só umhas poucas:
Origem de palavras como vilão
Correspondências africanas ou brasileiras de expressons como 'Filho de peixe sabe nadar'
Adaptaçom de estrangeirismos (como a organizaçom armada árabe Alcaida)
O significado de expressons como “sair de fininho”, “sair à francesa”, “a dar com um pau”, “arruada”, “és de Braga?”, etc
A diferença entre história e estória, se existir.
Etc.