Resenha de Carlos Compoi Vasques
Carlos Campoi Vasques nasceu em València mas em criança véu (trouxeram-no) para Galiza e cá ficou.Come do ordenado de mestre e não tem nenhuma autoridade como crítico literário além da sua devoção pela literatura desde que aprendeu a ler.Acabou o curso de Português na EOI de Compostela e agora já não utiliza o espanhol para ler os escritores não ibéricos, pois (quase) sempre existe versão galega (em Portugal).
Com apenas 30 anos a Raquel presenteia-nos com este belo romance que narra as vidas, os costumes e, principalmente, os sentimentos de arraigo-desarraigo de quatro gerações de indo-portugueses das antigas e esquecidas colónias que Portugal possuiu de 1500 e tal até ontem mesmo: Dezembro de 1961.
Além da sua qualidade literária que o fez merecedor do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís em 2009, o livro está a ter grande sucesso em Portugal por ter dado a conhecer às novas gerações de portugueses, uns aspectos da sua história que tinham sido deliberadamente obscurecidos. Foi o mesmo Oliveira Salazar quem respondeu ao governador-geral do Estado Português da Índia «só receberei soldados vitoriosos ou mortos», quando aquele lhe fez ver a impossibilidade de derrotar à União Indiana militarmente. A fatuidade, a ignorância e a crueldade de este nefasto governante, fez com que morreram muitos militares portugueses e além disso, por ter-se negado a procurar algum acordo com o Nehru, o Salazar condenou os portugueses da Índia a emigrarem a um país que apenas nominalmente era seu, ou a permanecer nas terras em que tinham nascido eles e os seus pais e avós, mas perdendo o direito a manter e a transmitir a sua língua e cultura aos seus filhos, não sendo na intimidade dos seus lares e em modo quase clandestino.
O dia a dia de aqueles afastados portugueses que mantiveram a religião e a língua por 500 anos (entre os quais eram maioria os autóctones que tinham sido «convertidos» pelos missionários e que abraçando o catolicismo adoptavam também a língua do colonizador), é seguido primorosamente pela hábil pena da escritora que, com enorme sensibilidade, aproxima-nos aos pequenos acontecimentos familiares dos protagonistas do romance.
Os cenários do relato são Diu, Nagar –Aveli, Dadra, Damão e Goa, mas também Lisboa onde parte da família teve de instalar-se depois da descolonização. Em Portugal a Raquel Ochoa conheceu Clara Carcomo e decidiu acompanhá-la na viagem que esta quis empreender para reencontrar familiares e locais que diziam respeito da sua identidade. E lá na Índia que tinha sido portuguesa, a Raquel sentiu a necessidade de escrever este formoso relato que eu recomendo vivamente a quem tivesse lido estas linhas.