Resenhado por Raquel Miragaia (Vilalva, 1974)
Estudou as carreiras de Filologia Galego-Portuguesa e Filologia Hispánica na Universidade de Santiago de Compostela. Exerce a profissom docente desde o ano 2000. Publicou a sua primeira novela, Diário Comboio, em Dezembro do 2002 em co-ediçom entre agal e Laiovento. Tem publicado colaboraçons em revistas e jornais como Mealibra (Portugal), Agália (Galiza), Novas da Galiza (Galiza), Cuadernos de Pedagogía (Catalunha), o fanzine 300 (Galiza), ou para umha peça do artista Mauro Trastoy. Acaba de sair à rua o seu último trabalho, Em Tránsito, um livro de contos publicado por Difusora e também à venda no Imperdível.
Quando em 2007 Doris Lessing foi premiada com o Nobel de literatura, algo no seu aspecto, as suas biografias às pressas nos jornais, as resenhas dos seus livros fixo com que sentisse desejo por conhecer algo da sua literatura. Talvez ficaria só em desejo se nom se dessem duas circunstâncias mais: receber dumha das minhas amigas e companheira atribulada nisto da profissom docente um artigo em que Doris Lessing teorizava sobre o que para mim era umha forte intuiçom –a escola é cada vez mais umha sancionadora de cidadaos obedientes, acríticos e pouco criativos-, e o haver um exemplar de As Avós e Outras Histórias na biblioteca do liceu em que trabalho.
Portanto, cheguei a Doris Lessing bem diferente a como habitualmente chego aos meus livros de referência. E nom apenas por estas circunstâncias externas que acabo de descrever, mas sobretudo por chegar à autora na sua madurez de nada menos que 84 anos e mais de quarenta livros no seu curriculo, além dum êxito literário induscutível e premiado com o mais grande dos galardons do sistema. Apesar disto, aproximei-me do livro com toda a inocência com a que me aproximaria de qualquer outro de autora menos conhecida. Nom sabia nada de Doris Lessing fora de que tinha sido premiada com o Nobel, dado que para mim nom tem nenhum significado no literário.
Desta maneira As avós e outras histórias foi a surpreesa que nom esperava e em que nom adoito acreditar. O livro compom-se de quatro relatos longos –ou novelas, nom sei muito bem como diferenciar os uns das outras-, de temas muito diversos mas atravessadas por valores bem semelhantes. As quatro começam com situaçons que vam derivar noutras que em nada tem a ver com os inícios, as quatro questionam de forma muito honesta e directa as relaçons interpessoais que podem ser ou nom condicionadas pola classe, a raça ou a ideologia, os quatro tenhem umha capacidade para descrever de forma muito realista personagens e acçons que ficam na nossa cabeça com umha imagem clara e marcada.
As avós, o relato que abre o livro, enfrenta-nos a umha maneira bem pouco preconceituada de conceber o desejo sexual. As relaçons que nele se estabelecem poderiam raiar no inverossímil, mesmo tem o perigo de cair no abertamente panfletário, se nom for porque as personagens estám tam magistralmente traçadas que empatizamos rapidamente com os seus sentimentos e nom duvidamos em momento nenhum das suas emoçons. Começa o relato com umha cena idílica rota por umha tensom que só será explicada no decorrer da história. Esta ambientaçom idílica vai dominar o conto enfrentada sempre com umha tensom sentimental que fai o efeito das correntes marítimas, muitas vezes tam escondidas como perigosas.
Vitória e os Staveney é um alegato antirracista e feminista em que ambos posicionamentos ideológicos som tam subtis que funcionam. A família Staveney poderia ser cada um e cada umha de nós, cidadáns bem pensantes e concienciados que lutamos pola nom discriminaçom mas que podemos simplesmente nom ver o nosso vizinho apenas por ser preto (substituir preto por cigano, gordo, aleijado ou qualquer outro ao gosto). A descriçom quase irónica dessa família que fai tudo com a melhor das intençons mas caindo muitas vezes no ridículo é às vezes demasiado próxima. A luta de Vitória pola sua subsistência é muito mais do que isso, é também a luta polo quarto próprio de qualquer mulher após Virginia Woolf, a luta pola dignidade e o orgulho.
O motivo, umha fábula política, neste caso nom futurista pois retrata umha civilizaçom antiga, mas que poderíamos aplicar perfeitamente ao nosso presente, que, através da personagem do idoso (personagem que se repete em vários relatos) caracterizado pola sabedoria e a experiência, apresenta um panorama desolador onde os traços mais valorizados na política (a justiça, o conhecimento, a educaçom) vam-se perdendo paulatinamente e deixando lugar à indolência, o desleixo e a arbitrariedade. O pior do relato, descobrir o motivo dessa decadência, motivo que nos fai olhar ao nosso redor e ficar um bocado apavoradas.
Por último, em Um filho do amor a guerra e as suas consequências devastadoras em soldados jovens e ignorantes servem à autora para contar umha história de amor que está nos limites do real o o idealizado. Para além da própria história, as descriçons desses soldados e a sua situaçom no barco em que viajam para o frente é um retrato bem fundamentado do absurdo. Depois dessa viagem, fica normal que o protagonista fique fascinado pola mulher que o recebe em Cidade do Cabo, limpa, etérea, angelical... Mais umha vez, a forma de enfrentar-se ao mundo desse protagonista enfrenta-nos a nós com o estranhamento que produz numha pessoa “do povo” (já sabem, só os pobres som do povo) a forma de vida das classes adinheiradas.
Enfim, estes relatos que assim definidos poderiam mesmo parecer decimonónicos som histórias muito actuais e que nos sacodem no seu trânsito por implicaçons de carácter moral e emocional pouco convencionais. Umha leitura para conhecer a Doris Lessing embora ao revés do habitual, das últimas obras às primeiras.
Raquel Miragaia, é professora de ensino secundário. Tem publicado umha novela Diário Comboio (Laiovento-Agal) e um livro de contos Em tránsito (DifusQuando em 2007 Doris Lessing foi premiada com o Nobel de literatura, algo no seu aspecto, as suas biografias às pressas nos jornais, as resenhas dos seus livros fixo com que sentisse desejo por conhecer algo da sua literatura. Talvez ficaria só em desejo se nom se dessem duas circunstâncias mais: receber dumha das minhas amigas e companheira atribulada nisto da profissom docente um artigo em que Doris Lessing teorizava sobre o que para mim era umha forte intuiçom –a escola é cada vez mais umha sancionadora de cidadaos obedientes, acríticos e pouco criativos-, e o haver um exemplar de As avós e outras histórias na biblioteca do liceu em que trabalho.
Portanto, cheguei a Doris Lessing bem diferente a como habitualmente chego aos meus livros de referência. E nom apenas por estas circunstâncias externas que acabo de descrever, mas sobretudo por chegar à autora na sua madurez de nada menos que 84 anos e mais de quarenta livros no seu curriculo, além dum êxito literário induscutível e premiado com o mais grande dos galardons do sistema. Apesar disto, aproximei-me do livro com toda a inocência com a que me aproximaria de qualquer outro de autora menos conhecida. Nom sabia nada de Doris Lessing fora de que tinha sido premiada com o Nobel, dado que para mim nom tem nenhum significado no literário.
Desta maneira As Avós e Outras Histórias foi a surpreesa que nom esperava e em que nom adoito acreditar. O livro compom-se de quatro relatos longos –ou novelas, nom sei muito bem como diferenciar os uns das outras-, de temas muito diversos mas atravessadas por valores bem semelhantes. As quatro começam com situaçons que vam derivar noutras que em nada tem a ver com os inícios, as quatro questionam de forma muito honesta e directa as relaçons interpessoais que podem ser ou nom condicionadas pola classe, a raça ou a ideologia, os quatro tenhem umha capacidade para descrever de forma muito realista personagens e acçons que ficam na nossa cabeça com umha imagem clara e marcada.
As avós, o relato que abre o livro, enfrenta-nos a umha maneira bem pouco preconceituada de conceber o desejo sexual. As relaçons que nele se estabelecem poderiam raiar no inverossímil, mesmo tem o perigo de cair no abertamente panfletário, se nom for porque as personagens estám tam magistralmente traçadas que empatizamos rapidamente com os seus sentimentos e nom duvidamos em momento nenhum das suas emoçons. Começa o relato com umha cena idílica rota por umha tensom que só será explicada no decorrer da história. Esta ambientaçom idílica vai dominar o conto enfrentada sempre com umha tensom sentimental que fai o efeito das correntes marítimas, muitas vezes tam escondidas como perigosas.
Vitória e os Staveney é um alegato antirracista e feminista em que ambos posicionamentos ideológicos som tam subtis que funcionam. A família Staveney poderia ser cada um e cada umha de nós, cidadáns bem pensantes e concienciados que lutamos pola nom discriminaçom mas que podemos simplesmente nom ver o nosso vizinho apenas por ser preto (substituir preto por cigano, gordo, aleijado ou qualquer outro ao gosto). A descriçom quase irónica dessa família que fai tudo com a melhor das intençons mas caindo muitas vezes no ridículo é às vezes demasiado próxima. A luta de Vitória pola sua subsistência é muito mais do que isso, é também a luta polo quarto próprio de qualquer mulher após Virginia Woolf, a luta pola dignidade e o orgulho.
O motivo, umha fábula política, neste caso nom futurista pois retrata umha civilizaçom antiga, mas que poderíamos aplicar perfeitamente ao nosso presente, que, através da personagem do idoso (personagem que se repete em vários relatos) caracterizado pola sabedoria e a experiência, apresenta um panorama desolador onde os traços mais valorizados na política (a justiça, o conhecimento, a educaçom) vam-se perdendo paulatinamente e deixando lugar à indolência, o desleixo e a arbitrariedade. O pior do relato, descobrir o motivo dessa decadência, motivo que nos fai olhar ao nosso redor e ficar um bocado apavoradas.
Por último, em Um filho do amor a guerra e as suas consequências devastadoras em soldados jovens e ignorantes servem à autora para contar umha história de amor que está nos limites do real o o idealizado. Para além da própria história, as descriçons desses soldados e a sua situaçom no barco em que viajam para o frente é um retrato bem fundamentado do absurdo. Depois dessa viagem, fica normal que o protagonista fique fascinado pola mulher que o recebe em Cidade do Cabo, limpa, etérea, angelical... Mais umha vez, a forma de enfrentar-se ao mundo desse protagonista enfrenta-nos a nós com o estranhamento que produz numha pessoa “do povo” (já sabem, só os pobres som do povo) a forma de vida das classes adinheiradas.
Enfim, estes relatos que assim definidos poderiam mesmo parecer decimonónicos som histórias muito actuais e que nos sacodem no seu trânsito por implicaçons de carácter moral e emocional pouco convencionais. Umha leitura para conhecer a Doris Lessing embora ao revés do habitual, das últimas obras às primeiras.