Resenha de Ernesto Vázquez Souza (doutor em Filologia galega pola UDC e crítico literário).
Não tenho dúvida, o último romance de Dan Brown, mais uma vez protagonizado pelo seu alter ego o professor de iconografia religiosa e simbologia, da Universidade de Harvard, Robert Langdon, terá uma forte repercussão mediática, se bem não tanta polêmica, além, ou por isto mesmo, da sua condição de ultra-best-seller.
Na linha encetada há três décadas por Umberto Eco, poucos autores como Brown têm explorado a metaliteratura com esse sucesso. São os tempos talvez os que o acompanham neste equilibrado prato formado por quatro interessantes elementos: a Sociedade maçônica com o seu ar de mistério e aparato ritual simbólico, a origem história e destino dos Estados Unidos segundo as imagens dos fundadores, o suspense das pistas e desencriptação desde os profundos e lôbregos sótãos do Capitólio e a mudança no pensamento que está a trazer a net.
Se os velhos rituais mações e os seus relacionamentos com os poderosos são a escusa perfeita, o marco elegido o Washigton National Mall, o Capitólio, o grande Obelisco, a Congress Libray, os labirintos do Smithsonian ou as áreas “nobres” da Capital, habitadas pela possante elite Norte-americana não desmerecem as aventuras do nosso flegmático e erudito protagonista, nem os grandes secundários.
Corridas, símbolos transmitidos com sabedoria aos escolheitos, mistérios e tragédias familiares, provas, quadrados mágicos, pirâmides lendárias, truques de canteiros, rituais em volta do poder, magia negra, uma mão decepada como convite arcano, a CIA, programadores expertos, uma desapiedada e efetiva agente do Governo, um maduro afro americano elegante, um padre cego de céltica fasquia, uma requintada WASP dedicada à noética, tecnologia, grandes carros, helicópteros, a Casa do templo e outros espaços maçônicos como uma cripta para refletir com todos os detalhes e um malvado, sinuoso, obsessivo e transtornado, com mais recursos e tatuagens que o mesmíssimo Queequeg de Moby Dick.
Langdon, mais uma vez não sabemos se bocadinho autoparodiado no seu saber e vestir, topa-se desta volta um tanto em horas baixas na maior parte do agitado percurso, como corresponde a um homem que se ergue às 4:45 da manhã e começa o dia com um treinamento – cousa de se manter – na piscina e um delicioso café a mão moído e passa o dia apenas equipado com o fato de conferencista arrastando um pesado objeto entanto é perseguido e resolve os mistérios e enquanto confronta a poderosa inteligência do antagonista.
Devo dizer que não está mal. O autor tem o jeito dos narradores efetivos de Romances de detetives, e de ficção cientista. Prima a história e os detalhes são os justos para nos envolver. A linha traça-se seguindo o romance, em paralelo acontecem dous tipos de anotações: os comentários de Langdon, ao jeito de notas professorais a roda pé, e aquelas com que se complementam as cenas e os percursos em pequenos detalhes da História a jeito de flasback que nos permitem ter aceso às informações e elementos das personagens.
Tem, porém, alguma queda, provocada talvez pela quantidade de informação artística, literária, científica e simbólica que o leitor deve digerir, e para mim que lhe sobram –entre tanto exibicionismo do virtuoso epatador- páginas... sobre todo ao final. Mas é interessante e mesmo as últimas páginas são um grande e espetacular crescendo que não decepciona.
Depois do final e nos trechos que tratam as descobertas de Katherine Solomon e os profundamentos filosóficos do seu irmão Peter há um excesso de mensagens transcendentais. Prolonga-se o livro e reitera o contexto que outorga uma e outra vez ao longo do Romance às criações dos Fundadores da Norte América e à sua obra, há – como há na rocambolesca e inquietante tortura do protagonista – uma crítica ao passado recente dos USA e uma grande admiração pela idéia política e social originária da que emanam o poder, a sabedoria, e a arquitetura onde se plasmam.
Maçonaria, elites, a polis de fundo, a tecnologia que nos aguarda e o futuro em esperança, o Símbolo perdido é uma trepidante jornada num longo dia, ao tempo novela de detetives, na linha do Signo dos Quatro de Doyle, misturada com aquelas pioneiras de Jules Verne, com pingas de reflexão romanceada sobre o poder e a tecnologia incluída. Uma obra mui acorde com o início da era Obama.
Resenha de Ernesto Vázquez Souza (Corunha, 1970)
Passageiro de muita parte, leitor atrabiliário e grafómano. Tem acompanhado o evoluir da cultura galega como testemunha desde 1986, ainda que por sorte, tertúlia e magistérios afortunados aos que está mui obrigado, acumula muita memória devanceira. É doutor em Filologia galega pola UDC e tem escrito cousas soltas sobre livros, repúblicas e literatura da Galiza. Ultimamente, convencido do fracasso da política lingüística e cultural dos últimos 30 anos, anda a aprender galego direito e colabora com o PGL entanto anda a ler de novo clássicos e velhos autores galegos.
Não tenho dúvida, o último romance de Dan Brown, mais uma vez protagonizado pelo seu alter ego o professor de iconografia religiosa e simbologia, da Universidade de Harvard, Robert Langdon, terá uma forte repercussão mediática, se bem não tanta polêmica, além, ou por isto mesmo, da sua condição de ultra-best-seller.
Na linha encetada há três décadas por Umberto Eco, poucos autores como Brown têm explorado a metaliteratura com esse sucesso. São os tempos talvez os que o acompanham neste equilibrado prato formado por quatro interessantes elementos: a Sociedade maçônica com o seu ar de mistério e aparato ritual simbólico, a origem história e destino dos Estados Unidos segundo as imagens dos fundadores, o suspense das pistas e desencriptação desde os profundos e lôbregos sótãos do Capitólio e a mudança no pensamento que está a trazer a net.
Se os velhos rituais mações e os seus relacionamentos com os poderosos são a escusa perfeita, o marco elegido o Washigton National Mall, o Capitólio, o grande Obelisco, a Congress Libray, os labirintos do Smithsonian ou as áreas “nobres” da Capital, habitadas pela possante elite Norte-americana não desmerecem as aventuras do nosso flegmático e erudito protagonista, nem os grandes secundários.
Corridas, símbolos transmitidos com sabedoria aos escolheitos, mistérios e tragédias familiares, provas, quadrados mágicos, pirâmides lendárias, truques de canteiros, rituais em volta do poder, magia negra, uma mão decepada como convite arcano, a CIA, programadores expertos, uma desapiedada e efetiva agente do Governo, um maduro afro americano elegante, um padre cego de céltica fasquia, uma requintada WASP dedicada à noética, tecnologia, grandes carros, helicópteros, a Casa do templo e outros espaços maçônicos como uma cripta para refletir com todos os detalhes e um malvado, sinuoso, obsessivo e transtornado, com mais recursos e tatuagens que o mesmíssimo Queequeg de Moby Dick.
Langdon, mais uma vez não sabemos se bocadinho autoparodiado no seu saber e vestir, topa-se desta volta um tanto em horas baixas na maior parte do agitado percurso, como corresponde a um homem que se ergue às 4:45 da manhã e começa o dia com um treinamento – cousa de se manter – na piscina e um delicioso café a mão moído e passa o dia apenas equipado com o fato de conferencista arrastando um pesado objeto entanto é perseguido e resolve os mistérios e enquanto confronta a poderosa inteligência do antagonista.
Devo dizer que não está mal. O autor tem o jeito dos narradores efetivos de Romances de detetives, e de ficção cientista. Prima a história e os detalhes são os justos para nos envolver. A linha traça-se seguindo o romance, em paralelo acontecem dous tipos de anotações: os comentários de Langdon, ao jeito de notas professorais a roda pé, e aquelas com que se complementam as cenas e os percursos em pequenos detalhes da História a jeito de flasback que nos permitem ter aceso às informações e elementos das personagens.
Tem, porém, alguma queda, provocada talvez pela quantidade de informação artística, literária, científica e simbólica que o leitor deve digerir, e para mim que lhe sobram –entre tanto exibicionismo do virtuoso epatador- páginas... sobre todo ao final. Mas é interessante e mesmo as últimas páginas são um grande e espetacular crescendo que não decepciona.
Depois do final e nos trechos que tratam as descobertas de Katherine Solomon e os profundamentos filosóficos do seu irmão Peter há um excesso de mensagens transcendentais. Prolonga-se o livro e reitera o contexto que outorga uma e outra vez ao longo do Romance às criações dos Fundadores da Norte América e à sua obra, há – como há na rocambolesca e inquietante tortura do protagonista – uma crítica ao passado recente dos USA e uma grande admiração pela idéia política e social originária da que emanam o poder, a sabedoria, e a arquitetura onde se plasmam.
Maçonaria, elites, a polis de fundo, a tecnologia que nos aguarda e o futuro em esperança, o Símbolo perdido é uma trepidante jornada num longo dia, ao tempo novela de detetives, na linha do Signo dos Quatro de Doyle, misturada com aquelas pioneiras de Jules Verne, com pingas de reflexão romanceada sobre o poder e a tecnologia incluída. Uma obra mui acorde com o início da era Obama.