Resenhado por Carlos Quiroga, [Escairom (Terra de Lemos), 1961]
Actualmente é escritor e professor de literaturas lusófonas na Universidade de Santiago de Compostela, membro da direcçom da Associaçom de Escritores em Língua Galega, membro da Associaçom Galega da Língua (AGAL) e actual director da prestigiosa revista Agália.
Publicou G.O.N.G. -mais de vinte poemas globais e um prefácio esperançado (1999), Periferias (1999, Prémio Carvalho Calero de narrativa, publicado em Brasil em 2006), A Espera Crepuscular (2002, primeira parte da trilogia Viagem ao Cabo Nom), Il Castello nello Stagno di Antela - O Castelo da Lagoa de Antela (2004, Prémio de Teatro infantil na Mostra de Ferrol-Terra em 1988, publicado na Itália em galego e italiano), O Regresso a Arder (2005, terceira parte de Viagem ao Cabo Nom), Inxalá (2006, Prémio Carvalho Calero de narrativa), Venezianas (2007). Fundou e dirigiu a revista galega O mono da tinta.
Bolseiro de investigaçom da Fundaçom Calouste Gulbenkian (1991-92), do actual Instituo Camões (1992-93), e da Universittà Italiana per Stranieri (1983), foi prémio extraordinário de doutorado, professor de Língua e Literatura Galegas, e o primeiro professor de Português em E.O.I. na Galiza, antes de trabalhar na universidade.
É autor de trabalhos de variada índole, de caráter criativo, acadêmico ou divulgativo e colaborou em jornais, atas de congressos e revistas da Galiza, Brasil, Portugal, Alemanha e a Itália. Participou em encontros, conferências, mesas redondas em variadas geografias nomeadamente do estrangeiro e foi organizador de alguns eventos do mesmo tipo na Galiza (Escola Oficial de Idiomas da Corunha, Faculdade de Filologia de Compostela, nos três Trasatlântico- Encontro de Escritores na Finis-Terrae, no Galego no mundo- Latim em pó organizado ao amparo da Capital Europeia da Cultura 2000, no Portugal Hoje, etc…). Algumhas das obras de Quiroga têm edições próprias em Portugal e no Brasil, mantendo relaçom fluida com esses espaços literários graças ao seu compromisso reintegracionista e à sua inequívoca concepçom da nossa cultura como parte do âmbito lusófono.
Quem não leu Saramago algum, que motivos teria para ler Caim, a última obra do Nobel de Literatura português? E, se já leu o melhor Saramago, que motivos teria para acrescentar este título...? Certamente a polémica suscitada pelo livro nada mais sair, acusado pela Conferência Episcopal lusitana de afronta jacobina e sectária aos católicos, criou uma publicidade que pode animar o iniciante, e ao tempo retrair o leitor exigente: deixem-me ficar, dirá este, com o deslumbramento que no seu dia me causou o Memorial, ou O Ano da Morte, ou A Jangada; até fico com O Evangelho, para militância anti-clerical já chega –incomodam-me operações de marketing. O iniciante que não leu Saramago, sim, pode sentir agora o reclamo constante da obra e tem mais possibilidades de atender o chamado desta vez, até porque se trata de um livro mais breve, mais fácil, mais em-toda-a-parte. Foi lançado em Outubro, diante de oitocentas pessoas lotando o Museu Municipal de Penafiel, e em quase todos os meios, do papel ao digital, e em quase todas as línguas, da Europa aos outros continentes, já se opinou, discutiu, avaliou. Mas tanto se fala, que do iniciante ao exigente pode haver interesse para descobrir Saramago ou para arredondar a sua obra. Todos, acredito, vamos acabar caindo em Caim, e entre todos vamos acabar fazendo deste livro o mais vendido do autor. Por isso não será supérfluo, para além dos motivos para lê-lo, descortinar elementos para apreciá-lo.
Nada de novo se passa aparentemente em Caim. Nele está a posição desde sempre defendida por Saramago em todas as suas obras. Globalmente, como afirmou Miguel Real, o discurso literário do autor vem evidenciando um objectivo empenhado de carácter histórico e extra-literário desdobrado em duas faces: deconstruir verdades estereotipadas, preconceitos do senso comum, grandes mitos ocidentais, que têm sutentado a construção da história, em especial de Portugal; pôr em evidência perversões, intimamente vinculadas ao poder, em que se funda a interpretação dessa história. A prática consiste em revisitar grandes conceitos filosóficos fundadores e reitores da civilização ocidental, e subverter os seus conteúdos semânticos tradicionais. Caim volta à deconstrução do mito fundador da religião judaico-cristã, completando O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), e as peças de teatro A Segunda Vida de Francisco de Assis (1987) e Nomine Dei (1993). Saramago confrontara o Novo Testamento em 91, tentando desmontar o mito da origem divina de Cristo, e confronta agora o Antigo Testamento e a origem divina do homem. Tudo bem.
Só que em Caim está algo mais –o Saramago mais friki, que ajusta contas da maneira mais louca. No Evangelho havia desafio (um Jesus que perde a virgindade com Maria Madalena, um Jesus utilizado por Deus para ampliar o seu poder no mundo), mas havia também dosagem, ordem. Em Caim desaparece qualquer preocupação por dosagem. Fica o desafio, e o modo de praticá-lo. A polémica grave do Evangelho, com custos pessoais para o autor em 1992, que teriam a ver com a saída de Portugal –e talvez também com o reconhecimento mundial posterior–, só pode estimular o frikismo desse modo de desafiar em Caim. O autor mora agora em Lanzarote, é prémio Nobel, e está no final da sua vida: só ele pode permitir-se entrar na Bíblia de novo e assim, da maneira mais louca, por vezes infantil. Só por isso já vale a pena ler o livro sem mais saber, mas cabe ainda algum indício dos modos como entrou.
Mantém o estilo saramaguiano, barroco, de diálogo embutido, de léxico antigo cortado por actual, de mão dada ao leitor ao que vai mostrando a casa explicitamente. As tintas das paredes, isso sim, estão algo carregadas. O romance arranca bem humorado, com um Adão e Eva expostos ao absoluto caprichismo divino, e assenta no ponto de vista de Caim, que reconta episódios bíblicos. A justaposição arbitrária dos episódios soluciona-se sem pudor com "súbitas mudanças de presente que o faziam viajar no tempo, ora para a frente ora para trás" (93), de maneira que Caim pode primeiro segurar o braço de Abrão quando este vai matar o filho (p. 83), e no capítulo a seguir aparecer diante da tenda de Abrão que ainda não tivera tal filho ("o jogo de presentes alternativos havia manipulado o tempo uma vez mais", p. 93). O humor extravasa sem poupar o escatológico (veja-e quando Eva explica ao querubim de guarda no Paraíso que os expulsos estão com diarreias, ou caganeiras, que "significa que não consegues reter a merda que levas dentro de ti", p. 28). Até o toque anacrónico persegue a efectividade hilariante (veja-se o anjo que chega atrasado para deter o braço de Abrão contra o filho: "quando vinha para cá surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda, o resultado foram contínuas mudanças de rumo que me desorientavam, na verdade vi-me em papos-de-aranha para chegar aqui, ainda por cima não me tinham explicado bem qual destes montes era o lugar do sacrifício, se cá cheguei foi por um milagre do senhor", pp.83-84). Enfim, toda a história bíblica que Caim vai narrando se desmonta impiedosa e ironicamente. O resultado é bem mais sério. É o de uma Bíblia "manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana"; é o de um "Deus cruel, invejoso e insuportável, que existe apenas em nossas mentes". Isso foi o que Saramago declarou nestes dias. E vale a pena ir ver como é no livro.