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Fugas

Fugas

As oito histórias reunidas em Fugas falam sobre pessoas -mulheres de todas as idades e de origens diferentes, os seus amigos, amantes, pais e filhos- cujas vidas, nas mãos de Alice Munro, se tornam reais e inesquecíveis.

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Maria Peom Torres (Ponte Vedra, 1979)


Apesar de ter crescido em Louriçam, agasalhada polos airinhos da celulose, sentiu a necessidade de experimentar a vida noutras latitudes e dá aulas de francês alí onde puider, agora mesmo na Fonsagrada.

O Canadá celebra cada publicação da Alice Munro com grandes sucessos de vendas e o seu reconhecimento incontestável como mestra do relato curto. Sendo assim, é difícil entender as razões do silêncio que a indústria literária lhe reservou fora das suas fronteiras. Felizmente, as suas obras começaram a ser traduzidas na Europa nesta última década, vindo acalmar a nossa sede de histórias novas.


Devo admitir que a Alice Munro entrou na minha estante graças a um encontro casual; numa de tantas tardes de tédio parisino em que achei no jornal o anúncio dum ato de lançamento dum livro, do que nenhuma referência tinha, mas que consistia na leitura dramatizada de contos, é claro que a atividade ajustava-se ao máximo às minhas preferências: «grátis, ao quente, vai-se falar de literatura, vou escutar recitar uma atriz conhecida, vou merendar e, se calhar, falar com alguém». De Alice Munro nem a sombra, pois ela é uma dessas escritoras que esquivam todo contato com o mundo «real», segundo nos disse o seu editor aquela tarde.

Sobra dizer que no dia seguinte corrim procurar essas fugitivas que me cativaram a noite toda. E foi assim que em oito histórias deu-me para atravessar o horizonte estreito do túnel do metro, para rasgar as cortinas que embaçavam as vistas, para evitar companhias...


Oito histórias de mulheres, oito contos extensos, construídos como relatos talhados com precisão. Nenas, raparigas, mulheres entre duas idades, velhas, apaixonadas, anguriadas, doentes, amigas, nais, filhas, vizinhas, companheiras de viagem, empregadas..., e espantosamente parecidas a nós.


Munro conta nestes oito relatos (Fugida, Acaso, Em Breve, Silêncio, Paixão, Ofensas, Truques e Forças Ocultas) oito mulheres, cada uma à sua maneira, à beira do abismo, umas saltarão outras não.


Desculparedes a minha resistência a desvelar nenhuma dessas histórias, só quero lembrar as minhas razões para não perder a oportunidade de se mergulhar nelas: adorei-as porque estão no meu presente, falam do que sinto, são universais, profundas, atrevidas...; porque é difícil inventar situações e personagens novos em torno ao que parece a mesma história; elas são uma, como bonecas russas, uma esconde a outra e progridem dun relato a outro imersas noutros cenários, noutras famílias, noutras épocas.


Como disse Jonathan Franzen em The New York Timesa 14 de novembro de 2004* « She is speaking to you and to me right here, right now ».

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