A poesia experimentou ao longo do século XX toda série de transformaçons imaginadas polos produtores. A procura de originalidade por parte de aqueles que concebiam o trabalho neste âmbito com umha perspectiva mais individual; ou a necessidade de novas formas de expressom para espelhar ânsias de mudança, e os tempos e as oportunidades emergidas ao se concretizarem as novidades, oferecérom um variado leque de formulaçons que vam da reivindicaçom de escolas e tradiçons antigas, como o neotrovadorismo ou mesmo clássicos antecedentes; ao próprio questionamento da poesia como género, por propor a sua confluência com a prosa, anteriormente considerada a sua antítese.
Diversos movimentos reflectem as luitas entre as visons mais conservadoras e as anelantes de progresso. Entre os produtos que se canonizárom encontramos aqueles em que o poeta parece falar só consigo, como se fosse ser único que fugisse do contágio exterior; a outros que esquecem propositadamente a individualidade (mesmo chegam a negá-la) e frisam só a orientaçom social e colectiva, ou para objectos imateriais, ou para o nada. Entre eles, toda umha série de possibilidades. E por vezes, mais de umha posiçom arvorada por um único autor em diferentes momentos da sua trajectória.
Celso Emílio Ferreiro defendeu nessa centúria a doutrina goethiana de que poesia é verdade; Fernando Pessoa, no lado oposto, manifestou num dos seus mais difundidos versos que "o poeta é um fingidor"; Guerra da Cal afirmou ser
Uma
orgia verbal
disparatada
Gabriel Celaya definiu-na como "uma arma cargada de futuro"; em Manuel Maria podemos encontrar possibilidades muito díspares; ou nos poemas-piada de Carlos Drummond de Andrade, nos sociais de Agostinho Neto, nos de amor de Pablo Neruda, nas cantigas galegas de Ricardo Flores, nos mais próximos poemas globais de Carlos Quiroga, ou na consideraçom de João Guisan Seixas de ser a poesia"tipograficamente, um sólido que se evapora por si próprio", por colocar alguns significativos exemplos, deparamos com disparidade, contrastes e riqueza interpretativa.
A poesia, pois, testemunha as convulsons de um século complexo, e demonstra como a sociedade nom se move só por essencialismos, mas sobretodo por interesses e aspiraçons de grupos em conflito, por mais que este seja porventura negado em ocasions pelos poderes dominantes, o que nom deixa de ser umha manifestaçom mais da sua momentánea centralidade. No entanto, e apesar das discrepáncias e controvérsias, todos os poetas partilham o facto de os seus trabalhos reflectirem o conhecimento e a sua atitude perante o futuro no tempo em que os elaboráron. Conhecimento e atitudes que se podem manter ou mudar, segundo a evoluçom, persistência ou involuçom individual, a do(s) grupo(s) em que se esteja inserido e, é claro, a da sociedade em que se pretenda intervir e fazer valer.
O século XX, enfim, aparece-se-nos mais próximo. Mas também nos anteriores a poesia experimentou constantes mudanças, e do tempo dos joglares e trovadores ao classicismo, neoclassicismo e demais "-ismos", ou à própria "prosa poética", som muito diversas as doutrinas e práticas alicerçadas em redor dela. Mesmo a forma de produçom mudou, desde a dependência total dos mecenas, ou o prestígio da imitaçom dos clássicos, à progressiva independência -embora por vezes só formalmente- dos produtores.
Artur Alonso Novelhe emerge neste complexo e aliciante campo no século XXI. Observa-se que nom é um poeta imobilista; antes polo contrário, verificase umha clara evoluçom do seu poemário de estreia, Entre os teus olhos, a este Umha Meixela Depois a Outra. Mas no quadro de umha coerência e um modelo de mundo que permanecem e mesmo se complementam e reencontram; com o desejo de partilhar ambos o serem "obras que se lêem deliciosamente e se gozam e, o qual é mais difícil, se compreendem", como assinalou a respeito do primeiro deles Raquel Miragaia. Se no trabalho inicial o seu diálogo era preferencialmente com a sua maior proximidade, agora estende o seu conhecimento e ocupa-se de temáticas sociais mais amplas.
Encontramos nas páginas que seguem versos
como
eu perdim
bem sabes
mas o mundo é por vezes injusto
e um apelo constante em favor da aprendizagem pessoal e colectiva.
Chega assim a conclusons diferentes, mas que parecem prolongamento lógico, deduçom da sua maneira de pensar, construída em base a experimentaçons muito plurais. Encontramos na sua literatura desde umha visou da relaçom interpessoal, à asseveraçom a respeito da actuaçom social, quer do próprio indivíduo e/ou grupo(s) que agem colectivamente; quer das instituiçons, que contam por influirem para as aspiraçons mais positivas e de felicidade das suas vidas; mesmo revisita os deuses; voltando na parte final ao diálogo com os seres mais achegados, importantes em algum tempo ou que mantenhem uno lugar de relevo na biografia pessoal, no decurso do próprio tempo que se reivindica.
Fai-no com um claro posicionamento no campo literário galego, ao se colocar do lado de aqueles que defendem umha longa tradiçom de aproximaçom da língua comum historicamente partilhada por Galiza e por Portugal, na esteira do caminho marcado por Castelao e por outros guieiros. Numha Galiza em que a maioria dos poetas, como dos restantes produtores literários, e nom só, insistem em bater na mesma pedra, com umha metodologia errada sobre o passado, e renunciam voluntariamente a um futuro mais próspero e internacional para o idioma, ao empregar o Galego-Castelhano -na seqüência do enunciado por Carvalho Calero-, Artur Alonso Novelhe desiste de muitos possíveis reconhecimentos para trabalhar em favor da superaçom de umha realidade que tem o seu alicerce num analfabetismo imposto, que parece urgente ultrapassar num mundo mais aberto e muito mais justo.
Galiza é "um Pais que ainda não existe", por aplicar um celebrado verso de José Craveirinha. Na construçom e procura de um almejado futuro melhor Artur Alonso Novelhe parece caminhar por sendas afinadas, que o tempo deverá confirmar. O seu contributo poético merece ser apreciado, pois estamos perante unha voz e um conhecimento que nom se dedica à contemplaçom do presente com perspectiva anestesiante como tantos dos seus pares coevos, mas que olha para um novo e melhor alvorecer, sem dependências desnecessárias, em que talvez ainda poucos acreditem, mas que será mais certo quanto maiores esforços se somem para o atingir e para que frutifique.
E o seu é um bom exemplo, sem sombra de dúvida.
Joel R. Gômez
Milhadoiro, em 24 de Fevereiro de 2005.