José Manuel Araujo.
Por isso é para mim tão gratificante esta iniciativa da AGAL. Pois com esta nova edição vou ver aparecer na amada Terra natal –única Pátria do meu espírito— esta já minha pálida Lua e este meu já cinzento Rio, desconhecidos para o público leitor das gerações mais novas, trajados agora com o vestido portugalego do resto da minha obra lírica. Isto é com a ‘koiné’ do mundo universal da Lusofonia, à qual –seja qual fôr o destino que Deus venha providenciar para a Galiza—eu, pela LÍNGUA –que é o crisol da ALMA – pertenço.
(Ernesto Guerra da Cal, texto prefacial à edição da AGAL de Lua de Além-Mar e Rio de Sonho e Tempo, p. 52)
Em Agosto de 1965, o Jornal de Letras do Rio de Janeiro, publicação central na altura no Brasil para a poesia, homenageou Da Cal como poeta, publicando dois poemas dele, acompanhados de versão para o cânone ortográfico brasileiro realizada pelo eminente poeta e académico Manuel Bandeira. Aquela homenagem era salientada na capa da prestigiosa revista literária, e ocupava toda a página 7. Aí, Eduardo Portella, na altura nome já cimeiro da crítica brasileira (depois Ministro do Governo do Brasil e alto cargo da UNESCO, e hoje reputado acadêmico, ensaista e pedagogo de projeção internacional; de estirpe galega) ocupou-se da produção científica e literária de Ernesto da Cal. Nesse magnífico estudo de 1965, em que valoriza conjuntamente Lua de Além-Mar e Rio de Sonho e Tempo, afirma Eduardo Portella:
Ernesto Guerra da Cal já não precisa ser apresentado no Brasil. Sua lição de crítico, sua voz de poeta, seu calor humano, fizeram dèle uma extraordinária legenda que preservamos conosco, e onde se mistura, numa estranha e perfeita combinação, o mestre que seguimos e o irmão que amamos. Ernesto Guerra da Cal é professor do Queens College, de City University of New York.
Esta condição super-metropolitana não apagou nele o cidadão da sua província natal, o galego impedernido que carregou consigo as rias claras e os campos verdes da sua
Galiza, que se manteve fiel à lua de além mar e construiu um imenso rio de sonho e de tempo. A êle, “navegador e troveiro”, parente próximo de Don Paio Gomes Charinho, e de todos os construtores da tradição galaico-portuguêsa, reverenciamos aqui, agora e sempre. [..]
Lua de alén mar (1959) e Rio de Sonho e Tempo (1963) dilata o horizonte expressivo
desse território comum e múltiplo da lírica luso-galego-brasileira. A arregimentação
apropriada de recursos idiomáticos novos e velhos, o tratamento renovado dos nossos
temas de sempre, a saudade, a mesma da sua Rosália de Castro, a angústia do tempo, o sortilégio do mar, fazem dêsse trovador antigo e moderno, navegador e astronauta, um património nosso que nos cabe preservar.
A reedição desses dois poemários pela AGAL, em 1991, inclui uma “Apresentação” da Professora Doutora Maria do Carmo Henríquez Salido, prestigiosa docente e pesquisadora da Universidade de Vigo, na altura presidenta da AGAL. Em texto prefacial a esse volume, justifica a sua publicação, afirmando Henríquez Salido (p. 13):
Se a grande Rosalia levantou umha bandeira numha época determinada da nossa Literatura, o Professor Ernesto Guerra da Cal, Membro de Honra da “Associaçom Galega da Língua” desde o momento da sua criaçom mais umha vez fazia agitar essa mesma bandeira em contra da inadequada situaçom da nossa escrita e da nossa língua. Só com a reintegraçom no ámbito cultural luso-brasileiro do galego é como se podia ultrapassar esse discurso provinciano e micro-regionalista.
Henríquez Salido, que reage com esperança perante o futuro, insiste em sublinhar o exemplo da trajectória de Da Cal, que tem nestes dois poemários ponto elevado e central da sua biografia e produção.